Memória e Tradição

O cinema traz no cerne de suas funções a preservação da memória, o registro dos fatos históricos, a imortalização de pessoas e acontecimentos, sua disponibilização para as gerações vindouras. Também é próprio do cinema, por sua forma e suas narrativas, recontar as histórias, reatualizar as memórias. Há filmes que nos propõe como tema a reflexão sobre a memória, nos aproxima distintos tempos históricos, pensam na relação entre o passado e o futuro em nossa ação no tempo presente. Há filmes que se constroem a partir da tradição oral ou da construção de imagens de representem o passado, trazendo a memória como artifício. No programa Memória e Tradição indígena temos filmes que percorrem esses caminhos diversos do atravessamento de cinema e memória, realizado por cineastas indígenas que assumem para si a responsabilidade e o lugar de fala na preservação de sua cultura.

Iconografias dos Tingui-Botó: Polifonias do toré - é um vídeo singelo, sensível e afetivo, feito com fotos de torés da comunidade. Materializa a dimensão de passagem do tempo, a saudade, a celebração, o cotidiano. É um registro na contramão da história de apagamento que vem acontecendo sistematicamente com o passar do tempo. É um resgate da memória do povo Tinguí-Botó.

Tempo Circular - aborda o tempo na visão indígena da Nação Pankararu. Um tempo não linear, um tempo circular, tempo de escutar o passado estando no presente e pensando no futuro, um tempo onde os três estágios de tempo se comunicam com sabedoria, respeitando o ciclo natural das coisas.

Ihiato - os realizadores entrevistam os mais velhos para saber as histórias antigas. Os anciãos relembram Padre Alfredo e outros colaboradores brancos, como Jacobino e Basílio com contribuíram para o bem-estar de seu povo. Contam das condições precárias de antigamente, do esforço em não perder a língua. Um filme de memória e gratidão dos Fulni-ô com os amigos não indígenas que os ajudaram.

Mãtãnãg, A Encantada - é uma bela transposição criativa para a linguagem audiovisual de uma história tradicional do povo Maxakali. A índia Mãtãnãg segue o espírito de seu marido morto até a aldeia dos mortos e depois retorna para a aldeia. Mesmo alertada pelo espírito do marido que não poderia contar aquela experiência pra ninguém, ela conta para os parentes o que viu na terra dos espíritos. Mais uma vez vivos e mortos se reencontram. Juntos eles superam os obstáculos que separam o mundo terreno do mundo espiritual. Um filme de amor.

Guardiães de um tesouro linguístico - é um documentário com elementos ficcionais em que o realizador ouve histórias de parentes mais velhos, quando eles recordam passagens de suas infâncias. Alterando as cores e texturas das imagens, o realizador simula imagens antigas, que descrevem poeticamente essas lembranças do passado. A gravação dos relatos dos antigos de suas memórias é uma forma de registrar a língua e preservar a história.

TEMPO CIRCULAR

Núcleo/Coletivo: Olhar da Alma Filmes

Direção: Alexandre Pankararu, Graciela Guarani

Etnia: Pankararu

Ano: 2019

Duração: 20 minutos

Ihiato

Núcleo/Coletivo: Coletivo Fulni-ô De Cinema

Direção: Hugo Fulni-ô

Etnia: Fulni-ô

Ano: 2015

Duração: 15 minutos

Mãtãnãg, A Encantada

Núcleo/Coletivo: Pajé Filmes

Direção: Charles Bicalho, Shawara Maxakali

Etnia: Maxakali

Ano: 2019

Duração: 14 minutos